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Por Solange Fonseca

Nós somos um tipo muito diferente de “ser”, somos um tipo de ser vivo que conversa.

Sim, outros seres vivos também se comunicam, por meio de seus sons conseguem avisar quando estão em perigo, quando acham comida, quando o dia amanhece, quando estão cansados ou quando precisam reunir seu grupo, mas conversar é algo diferente, conversar é nosso, uma característica exclusiva dos seres humanos.

Conversamos para tudo.

Conversamos para organizar uma simples festinha de aniversário, para coordenar ações no nosso trabalho, para compartilhar conhecimentos e saberes, para falar dos nossos sentimentos, para pedir, explicar, argumentar, discutir…e, também, para abrir outras conversas.

Conversar é o nosso ponto de partida para nos relacionarmos no mundo, para estabelecermos nossos vínculos, nossas relações, para convivermos em sociedade, não importa onde, nem em qual língua ou em qual cultura vivemos, todos, de alguma maneira, conversamos.

E a Comunicação Humana ocorre, principalmente, neste con-versar, neste con-viver.

Ao mesmo tempo que as conversas são nossas portas de entrada para nos relacionarmos no mundo e podemos, por meio delas, abrir infinitas possibilidades, são elas, também, uma das principais fontes dos nossos problemas, conflitos, ressentimentos, dores e angústias.

Neste tempo de “incertezas prolongadas”, a Comunicação Humana, este nosso espaço conversacional, está influenciado, impactado por uma série de emoções e sentimentos que, muitas vezes, não sabemos nem identificar. Emoções antagônicas de esperança e desesperança, alegria e tristeza, amor e ódio, e é, nesta gangorra emocional, que nossas conversas acontecem.

Não apenas as conversas que fazemos com os outros, mas também as conversas que fazemos com nós mesmos, neste nosso espaço cognitivo reflexivo que resgata o nosso ser e o faz mergulhar em pensamentos, muitas vezes nos levando a grandes ideias, espetaculares insights, silêncio, paz e luz e, outras vezes, nos levando para nossa parte mais sombria, ao encontro dos nossos medos, nossas fragilidades e ao sentimento de “não haver saída” para tudo que temos vivido nesta pandemia.

Enquanto estamos nas nossas conversas com nós mesmos, também estamos navegando nas nossas conversas com os outros e, não vamos nos enganar, tudo que ocorre internamente em nosso ser se reflete no nosso viver cotidiano, ou seja, nos nossos espaços de con-vivência com os outros, seja em casa, onde no momento temos vivido de forma bastante intensa, seja no nosso trabalho virtual, com nossa família ou amigos.

Aqui chegamos a um ponto, se somos seres conversacionais, se nossas relações, nossa socialização, construção de mundo ocorrem neste con-versar e con-viver, o que temos feito até aqui? Como temos cuidado deste nosso espaço conversacional? Seja com o outro, seja com nós mesmos?

É fato que temos vivido todas estas incertezas que nos colocam nesta gangorra emocional, que tratamos neste texto, mas é fato também que, muitas vezes, esquecemos o quanto somos responsáveis por nossa Comunicação, ou seja, pela Comunicação Humana, por nossos espaços de con-vivência e de con-versas.

Deixamos de cuidar daquilo que nos faz ser o tipo de ser que somos, SERES HUMANOS, e, como seres humanos, nós só temos o mundo que criamos com os outros neste CON-VERSAR. É isto que temos, é isto que vivemos, e por mais que, diversas vezes, este outro seja muito diferente, é na aceitação das nossas diferenças que está o que podemos chamar de humanidade. No convívio, no amor, no respeito e não na indiferença, na negação, na competição, no autoritarismo.

Em nenhum outro momento da nossa história, recebemos um chamado tão forte para cuidarmos uns dos outros.

Este cuidado começa por nossas conversas.

Estas conversas que você está fazendo aí na sua casa todos os dias, presencialmente ou virtualmente, com seus pais, filhos, filhas, companheiros, companheiras, amigos, amigas, equipes, funcionários, funcionárias, com a compreensão do quanto somos responsáveis por nosso con-viver e pelo mundo que criamos uns com os outros.

Então, como andam as suas conversas? Vamos conversar?

 

*Este artigo foi inspirado nas obras de um dos nossos mestres, o neurobiólogo Humberto Maturana e nos Cafés Ontológicos que promovemos aqui pelo Instituto Converse, gratidão a tod@s.

*As palavras con-viver, con-versar, con-vivência foram usadas desta forma propositalmente, buscando reforçar o sentido que todas elas trazem na sua semântica, o sentido do compartilhar, fazer junto.

 

Solange Fonseca

Comunicóloga, Co-fundadora do Instituto Converse.

 

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