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Por Teresa Pesenti

Diferentes correntes de desenvolvimento humano concordam que o ser humano é um ser biopsicossocial resultante de características genéticas e de experiências e relações que se estabelecem desde a vida intrauterina.  Concordam ainda que, em maior ou menor grau, a personalidade sofre influência de múltiplas vivências pela qual uma pessoa passa ao longo de sua vida.

Essa afirmação também é verdadeira quando nos referimos à forma como nos expressamos. A voz de uma pessoa adulta será mais forte e potente quando experiências na infância proporcionarem uma construção positiva sobre o que ela pode expressar e o poder que ela pode exercer com uma comunicação proativa. Respeitadas as diferenças físicas entre homens e mulheres, há que considerar também as diferenças no desenvolvimento entre gêneros que influenciam a maneira de estar no mundo e de se comunicar. A construção social da voz se relaciona à validação que nossa cultura dá ao fato de que homens e mulheres tem papéis diferentes na sociedade e, portanto,  a forma com a voz é construída também é influenciada por estes papéis .

A permissão em expressar é dada de forma diferente a homens e mulheres. Conforme crescem, os meninos são estimulados a assumir um papel de liderança, expondo seus conhecimentos, ideias e opiniões com maior propriedade. Como decorrência vivenciamos situações nas quais, quando homens e mulheres dividem o espaço da fala, é comum os primeiros se imporem pela intensidade de sua voz. Que mulher já não teve sua voz sobreposta por algum homem enquanto estava falando e por esta razão não conseguiu completar sua fala?  Quando estão em posição de liderança, as mulheres são desrespeitosamente interrompidas por seus pares. Vimos isso recentemente no Supremo Tribunal Federal onde a ministra Carmen Lúcia teve que marcar posição em relação ao uso da palavra para voto de sua colega, a ministra Rosa Weber, uma vez que o ministro Luiz Fux, disse, em tom jocoso, que estava concedendo um aparte à ministra Rosa para que ela falasse. No entanto, o momento era de voto, sendo a vez da ministra Rosa votar no assunto em pauta, não precisando da autorização do ministro Fux para se expressar.  Nesta ocasião a ministra Carmen Lúcia cita, de forma irônica, uma pesquisa que chegou à seguinte conclusão:  em todos os tribunais constitucionais onde há mulheres, o número de vezes em que as mulheres são aparteadas é 18 vezes maior do que entre os ministros”.

A ordem social, corroborada pela mídia, deixa para as mulheres um papel secundário no protagonismo social.

É muito comum vermos filmes em que a grande maioria do elenco é composta por homens ou casos em que o papel principal masculino ocupa muito mais espaço na narrativa do que o papel principal feminino. De fato, foi realizada uma pesquisa, entre 2010 e 2013, em 11 países distintos como Austrália, França, China, Coréia do Sul, Brasil e Alemanha para citar alguns dos países pesquisados e os dados denunciaram que dos 5.799 personagens que atuavam, apenas 30,9% eram mulheres.  Nos estilos de aventura e ação o número caia para 23%. Próximo deste valor está também a porcentagem de participação como protagonista no papel principal, apenas 23% do total. Embora essa pesquisa tenha sido concluída há 4 anos, dificilmente tenha havido uma mudança substancial sobre essa realidade.

No meio empresarial, participações em mesas redondas, debates e programas de entrevista também são, em sua maioria, protagonizados por homens. Da mesma maneira é possível constatar que a distribuição de postos de liderança em empresas públicas e privadas favorecem majoritariamente os homens. Pesquisas recentes mostram que, nos Estados Unidos, apenas 2% dos cargos de presidentes de empresas são ocupados por mulheres.

Como mudar essa realidade?

O termo “dar voz a” precisa de maior atenção na construção da identidade das mulheres.

A voz se constrói pela maneira como, quando criança, ela é tratada e pelas narrativas que ouve sobre si.

Se na infância uma menina tiver a sorte de estar em uma família que valoriza o ser feminino e reconhece seu poder, ela terá mais chance de se expressar livremente com uma voz natural. Por outro lado, se tiver uma família que a trata como uma princesinha, onde é sempre a filhinha do papai que precisa ser superprotegida em um mundo perigoso, terá uma voz infantilizada. Todos conhecemos mulheres que quando falam parecem uma criança. Também pode haver uma família que não reconheça a liderança feminina e o que a criança escuta ao longo de sua vida são adjetivos depreciativos como teimosa, briguenta, bocuda, linguaruda, mandona. Neste caso a voz pode se tornar apertada, perdendo potência e brilho.

Muitas mulheres que tiveram oportunidade de crescer profissionalmente, enfrentaram desafios enormes devido a sua dificuldade em se expressar, porque usavam uma voz fraca e que soava insegura na hora de resolver questões pertinentes ao trabalho.  Posso citar como exemplo, um caso que atendi há alguns anos atrás. Uma mulher, com 38 anos de idade, chegou até mim com a queixa de que os funcionários subordinados a ela não acatavam suas ordens. Ela ocupava a chefia de um departamento de uma determinada secretaria de estado e sua voz era presa na garganta, quase sem projeção no ambiente. Havia nela uma não permissão de se impor, mesmo sua formação acadêmica sendo a melhor entre todos os funcionários e tendo ela a estatura de 1,75 de altura, o que por si só já facilitava uma postura de imposição. No seu histórico familiar foi levantada a figura de pai autoritário que não deixava as meninas da casa falarem.

Através de exercícios vocais, o foco do trabalho foi de unir o resgate da sua identidade pessoal ao desenvolvimento da consciência do poder de sua voz. Em pouco tempo a insegurança deu lugar à decisão e ela finalmente pode se expressar sem medo, com uma voz firme, em consonância com suas necessidades, desejos, ideias e paixões.

Embora histórias como essa ainda sejam comuns nos dias de hoje, muitos passos já foram dados na direção do empoderamento e do protagonismo feminino. A cada dia mais e mais mulheres tomam consciência dos espaços que podem ocupar na sociedade e de seu potencial de realização. Cabe a cada uma de nós olhar para o lado e reconhecer, nas outras mulheres que nos cercam, uma amiga e uma aliada para reescrever uma nova narrativa sobre o poder feminino e o protagonismo na construção de uma sociedade mais justa e igualitária onde todas as vozes possam ser ouvidas.

 

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