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Viver nos faz crescer por Solange Fonseca

Meses atrás, aconteceu um fato muito interessante em nossa casa e que me fez refletir muito sobre o tipo de observador que cada um de nós é do mundo em que vivemos. Quero dividir com vocês esta reflexão.

Humberto Maturana, biólogo e um dos meus mestres, grande estudioso do comportamento humano, diz que apenas somos capazes de interagir num mundo que somos capazes de observar, ou seja, precisamos ter as distinções para que a interação ocorra. Por exemplo, os esquimós podem distinguir muitas tonalidades de branco quando olham para a neve, eles sabem distinguir a neve para beber, a neve para caminhar, a neve para transportar, enquanto aos nossos olhos existe apenas um tipo de neve.

Mas voltando ao fato interessante.

Chegamos em casa e havia um pequeno inseto morto no chão da sala, algo comum em nossa casa, moramos perto de uma reserva num local cercado pelo verde da Mata Atlântica. Não ligamos muito para o bichinho e saímos fazendo o que sempre fazemos, organizando o banho das crianças, o jantar etc.

De repente, um grito e um choro, era o Lucas, nosso filho que naquele mês completaria 06 anos, nós descemos correndo as escadas e lá estava ele com o bichinho nas mãos, era uma abelha.

Até este momento tudo bem, acontece que ele havia pego delicadamente a abelha com uma das mãozinhas e espetado o ferrão da abelha no dedo polegar da outra mãozinha.

Meu marido na hora perguntou a ele porque ele havia feito aquilo e claro que ele não tinha a resposta.

Comecei a conversar com ele, contando histórias sobre picadas que eu já havia levado na vida, picadas que minhas irmãs já haviam levado, picadas que o papai já havia levado…ele foi se interessando pelas histórias e se acalmando.

Então, veio a hora de retirar o ferrão! Um pouco mais de choro e estava tudo resolvido.

Mas, por que o Lucas havia espetado o ferrão da abelha no seu próprio dedo?

Refleti bastante sobre isto e foi uma grande lição para mim.

Lembrei do Maturana e suas explicações sobre o Observador.

A interação do Lucas com a abelha foi muito distinta da interação que eu teria com a abelha ou que você teria com a abelha, por um único motivo: só é possível saber de fato o quanto dói uma picada de abelha se um dia experimentarmos uma picada de abelha.

Posso dizer um milhão de vezes para os meus filhos “cuidado, as abelhas picam”, “cuidado tem uma abelha perto de você”, mas o que isto significa para eles? Apenas mais um alerta da mamãe protetora!

Lucas não tinha aquela informação até vivenciá-la, não sabia a dor da picada da abelha até experimentá-la e ele quis vivenciar aquilo. Até aquele momento ele era um tipo de observador das abelhas e naquele dia passou a ser outro tipo, a partir do seu aprendizado, da sua vivência.

Tudo isto só me fez refletir que nesta relação entre pais e filhos devemos ter a consciência de que nunca conseguiremos proteger nossos filhos de viverem as dores da vida, por mais que estejamos por perto, por mais que possamos aconselhá-los, orientá-los, ajudá-los, eles precisam viver estas dores para assim se tornarem observadores distintos do mundo. Eles precisam viver as picadas dos insetos, precisam conhecer as dores do coração, conhecer os medos, as alegrias, as emoções, para aprenderem a lhe dar com elas, para aprenderem a interagir com o mundo.

Vivendo as dores e os amores da vida é que eles irão crescer! E que assim seja!

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