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Por Solange Fonseca

Hoje em dia, temos falado muito sobre empatia dentro das organizações, surgem diversos workshops e palestras que tratam do tema. Como ser um líder empático, como praticar a escuta empática, como trabalhar com empatia.

Para Humberto Maturana, renomado biólogo chileno autor da Autopoeise, a empatia é algo que não existe. Biologicamente não somos capazes de nos colocarmos no lugar do outro, de sentir o que o outro sente, de observar o que o outro observa, de escutar o que o outro escuta.

Para Maturana, falamos de empatia, pois estamos vedados a falar de amor dentro das organizações. Amor é quase um tema proibido nos espaços de trabalho.

Falar de amor é piegas, soa como algo ingênuo para alguns, ultrapassado para outros, impossível de se aplicar nos ambientes de trabalho. Como assim ser amoroso no trabalho? Como assim ser um líder amoroso? Ou ter uma equipe amorosa?

É quase um tabu. No trabalho não conversamos sobre amor. Não somos contratados para amar ninguém. Não podemos obter resultados se ficarmos distribuindo amor.

Estamos nesta busca por formas de nos relacionarmos melhor, por formas de conseguirmos trabalhar em equipe, por formas de nos comunicarmos melhor, sermos mais colaborativos, conscientes de que sem isto não podemos atender as novas perspectivas mundiais e nem as novas exigências profissionais, mas não podemos falar de amor.

Biologicamente não estamos constituídos para termos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e nem de vermos, observarmos como outro, mas estamos constituídos para amar o outro. A natureza humana é uma natureza de amor.

Quando Humberto Maturana é perguntado sobre o que significa colocar o amor como um fundamento biológico do ser humano, ele responde:

“O ser humano não vive só. A história da humanidade mostra que o amor está sempre associado à sobrevivência. Sobrevive na cooperação. Se a mãe não acolhe o bebê, ele perece. É o acolhimento que permite a existência. Numa de suas parábolas, Jesus fala do camponês lançando sementes ao solo. Algumas caem nas pedras e são comidas pelas aves, outras caem num solo árido e resistem por pouco tempo. Mas há aquelas que encontram boa terra e crescem vigorosas. Assim também nós precisamos de um solo acolhedor para nos desenvolver. Nosso solo acolhedor é o amor.”

Se em nosso viver somos acolhidos, seja no trabalho, em casa, junto à família, amigos, podemos nos desenvolver, crescer e sermos plenos. O amor, compreendido como uma forma de relacionamento, nos dá a possibilidade de compartilharmos a vida, de nos envolvermos e de vivermos experiências significativas com outras pessoas, respeitando o outro para que ele também exista em sua plenitude.

Amar é uma atitude, uma maneira de se colocar no mundo, uma forma de se conduzir na vida, que implica aceitar, respeitar o outro de forma incondicional, sem exigir ou esperar algo em troca, ocupando-se do bem-estar do outro, do bem-estar do planeta, do bem-estar dos espaços onde vivemos.

Mas como podemos levar o amor, como uma forma de relacionamento com o mundo, para dentro do trabalho?

Talvez uma forma seja observando a maneira como conversamos com os outros. Quando estou num diálogo consigo respeitar opiniões diferentes das minhas? Estou aberto a escutar os outros? Minhas ideias são sempre as melhores ou consigo trabalhar com um enfoque múltiplo dando espaço para co-criar e encontrar soluções conjuntas?

Na linguagem posso manifestar amor, seja no tom de voz, no equilíbrio, na atitude, na profundidade da minha intenção quando falo algo para alguém, seja no meu corpo, no meu olhar. Quando olho nos olhos de quem está falando comigo manifesto o meu amor.

Posso contribuir para que meu espaço de trabalho seja um solo acolhedor tanto para aqueles que estão, como para aqueles que chegam ou para aqueles que passam, permitindo que todos se desenvolvam, cresçam, sejam plenos e amados.

Acredito na empatia, mas mais do acreditar nesta nossa capacidade empática, acredito no poder do amor que nos faz existir como seres humanos.

Solange Fonseca é mãe do Lucas e da Julia, a maternidade aprofundou ainda mais seu desejo de viver num mundo com mais amor! Coach com formação em Ontologia da Linguagem e Biologia Cultural, co-fundadora do Instituto Converse.

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